"(...) Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os homens que em vós vão crer travarão uns com os outros, Insistes em querer sabê-lo, Insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembléia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cravados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas (...)
(...) Para começar por quem tu conheces e amas, o pescador Simão, a quem chamarás Pedro, será como tu, crucificado, mas de cabeiça para baixo, crucificado também há de ser André, numa cruz em forma de X, ao filho de Zebedeu, aquele que se chama Tiago, degolá-lo-ão, E João, e Maria de Magdala, Esses morrerão de sua natural morte, quando se lhes acabarem os dias naturais (...)
(...)Todos eles vão ter de morrer por causa de ti, perguntou Jesus, Se pões a questão nesses termos, sim, todos morrerão por minha causa, E depois, Depois, meu filho, já te disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas, Conta, quero saber tudo. Deus suspirou e, no tom monocórdio de quem preferiu adormecer a piedade e a misericórdia, começou a ladainha, por orfem alfabética para evitar melindres de precedências, Adalberto de Praga, morto com um espontão de sete pontas, Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, Afra de Ausburgo, morta na fogueira (...)
(...) Chegando ao fim da letra C, Deus disse, Para diante é tudo igual, ou quase, são já poucas as variações possíveis, excepto as de pormenor, que, pelo sofrimento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-nos por aqui, Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando o que podia, Donato de Arezzo, decapitado, Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana (...)
(...)Romão de Antioquia, língua arrancada, estrangulamento, Ainda não está farto, perguntou Deus a Jesus, Esta pergunta devias fazê-la a ti próprio, continua, e Deus continuou, Sabiniano de Sens, degolado (...)
(...)e outros, outros, outros, idem, idem, idem, basta. Não basta, disse Jesus, a que outros te referes, Acha que é mesmo indispensável, Acho, Refiro-me àqueles que, não tendo sido martirizados e morrendo de sua morte própria, sofreram o martírio das tentações da carne, do mundo e do demônio, e que para as vencerem tiveram de modificar o corpo pelo jejum e pela oração, Só pelo jejum e pela oração, perguntou Jesus, e Deus respondeu, Também ofenderão o corpo com dor e sangue e porcaria, e outras muitas penitências, usando cilícios e praticando flagelações, haverá quem se lance para o meio das silvas e se resolva na neve para domar as importunações da carne suscitadas pelo Diabo, a quem estas tentações se devem, Tudo isto farás, perguntou Jesus ao Diabo, Mais ou menos, respondeu ele, limitei-me a tomar para mim aquilo que Deus não quis, mas não é verdade que o medo seja uma arma minha, não me lembro de ter sido eu quem inventou o pecado e o seu castigo, e o medo que neles há sempre (...)
(...) Jesus disse, Continua, Outros há, recomeçou lentamente Deus, que se retiram para descampados agrestes e fazem vida solitária, outros que sobem a altas colunas e ali vivem anos e anos a fio, outros, Deus contemplava agora um desfile interminável de gente, milhares e milhares entrando em conventos e mosteiros, Ali vão ficar para nos servirem, a mim e a ti, de manhã à noite, tendo eles o mesmo propósito e destino, adorarem-nos e morrerem com nossos nomes na boca, beneditinos, cartuxos, bernardos, franciscanos, agostinhos, dominicanos, jesuítas, e serão muitos, muitos, ah como eu gostaria de poder exclamar Meu Deus por que são eles tantos (...)
(...)É tudo, perguntou Jesus a Deus, Não, ainda faltam as guerras, e matanças, muitas, um nunca mais acabar delas, as Cruzadas, a Inquisição (...)
(...)Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus pra gostar tanto de sangue. Tenho uma proposta a fazer-te, disse dirigindo-se a Deus, ouvi com grande atenção tudo quanto foi dito aqui nesta barca, e embora já tivesse, por minha conta, entrevisto uns clarões e umas sombras no futuro, não cuidei que os clarões fossem fogueiras e as sombras de tanta gente morta, E isso incomoda-te, Não devia incomodar-me, uma vez que sou o Diabo, Então de que te queixas, Não me queixo, proponho, Propõe lá, mas depressa, que não posso ficar aqui eternamente, Aceito e quero que o seu poder se alargue a todos os extremos da Terra, sem que tenha de morrer tanta gente, a minha proposta é que tornes a receber-me no teu céu, perdoado dos males passados pelos que no futuro não terei de cometer, que aceites e guardes minha obediência, como nos tempos felizes em que fui um dos teus anjos prediletos, Lúcifer me chamavas, E por que haveria eu de perdoar-te, Porque se o fizeres acaba-se aqui hoje o mal, seu filho não precisará morrer, o teu reino será, não apenas esta terra de hebreus, mas o mundo inteiro, por toda a parte o Bem governará, e eu cantarei, mais fiel que todos, os teus louvores, tudo começará a ser como se dessa maneira devesse ser sempre, não me aceitas, não me perdoas, Não te aceito, não te perdôo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, porque este Bem que eu sou não existiria sem esse mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, se tu acabas, eu acabo. O Diabo encolheu os ombros e falou para Jesus, Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus (...)"
Disse Jesus quando crucificado: "Homens, perdoai-Lhe, Ele não sabe o que fez."
O Evangelho Segundo Jesus Cristo; José Saramago; Prêmio Nobel de Literatura em 1998; Cia. das Letras.


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